MÍDIA

 

Fernando Nogueira da Costa | Fórum21

 

Na Festschrift – publicação da celebração em alemão –, em homenagem aos 70 anos de José Marcio Rego, a obra “Costuras do Pensamento”, recém-lançada pela editora Bienal, reúne muitas contribuições para a reflexão sobre Retórica na Economia. Tentei apresentar meu posicionamento a respeito – e aprendi bastante com os coautores.

De acordo com a minha observação, o debate público sobre Economia (disciplina com maiúscula) e economia (atividade com minúscula) no Brasil é frequentemente discriminatório e não plural. Apresento as seguintes ideias sobre essa questão.

Após a eleição brasileira de 2014, e início do golpismo contra a presidenta reeleita doutoranda no IE-UNICAMP (minha ex-aluna), em um ambiente político polarizado, economistas com visão social-desenvolvimentista foram praticamente segregados. Para sobreviverem no debate público, muitos (como eu) se refugiaram em redes sociais, blogs ou sites de esquerda.

Economistas com perspectivas heterodoxas foram sumariamente afastados da grande imprensa e da mídia televisiva brasileira. Raramente, talvez com a única exceção do Professor Luiz Gonzaga Belluzzo (ex-presidente do Palmeiras), têm colunas em jornais ou espaço em canais de TV com grande alcance. Isto impede um debate plural e esclarecedor para o público com a apresentação do contraditório.

Há também falta de pluralismo metodológico e intelectual. Escolas de formação ortodoxa raramente convidam economistas heterodoxos para debater suas ideias. Revistas acadêmicas ranqueadas muitas vezes excluem autores se não seguem a linha editorial convencional, através de avaliações tendenciosas de pareceristas supostos “cegos”, mas censores da linha de pensamento e bibliografia utilizada.

Academistas por conta do publish or perish, imposto pelo Qualis, não escrevem nada original e nem despertam o interesse. Seus artigos são enfadonhos só com citações excitantes da masturbação intelectual.

Na “grande imprensa”, colunistas midiáticos tendem a reforçar os argumentos da linha editorial neoliberal dos jornais, em vez de apresentar uma variedade de perspectivas econômicas. Economistas de bancos e consultorias recebem mais atenção diante os acadêmicos, influenciando o debate econômico com defesa de interesses particulares: gasto público no inferno e juro alto no céu…

Predominam o viés da confirmação e a câmara de eco. A ausência de debate público plural leva empresários (e eleitores) a tomarem decisões cruciais com base em análises econômicas enviesadas. Economistas ortodoxos buscam apenas dados capazes de confirmarem suas projeções, falando apenas com colegas conhecidos por compartilharem suas visões e esta auto validação leva à perseverança em erros de avaliação.

Daí questiono se a retórica na Economia é usada apenas no plano abstrato da Economia Pura, para pregar a convertidos, ou se é adaptada para convencer diferentes públicos, como clientes ou o público em geral, em uma Economia Aplicada, para a tomada de adequadas decisões práticas: a chamada Arte da Economia. Argumento a retórica necessitar se adaptar ao perfil cultural dos ouvintes não acadêmicos e ao objetivo da comunicação.

A conversação mantida pelos economistas afinados entre si com o fim de convencer-se mutuamente, se chegam ao comando da política econômica, é comum demonstrar o fenômeno psicológico conhecido como o viés da auto atribuição. Atribuem os sucessos às suas competências, e os fracassos ou às outras pessoas ou à má sorte conjuntural de um choque exógeno…

A conversação entre economistas é difícil de seguir. Quando um leigo não adquiriu o costume de ouvi-la, logo torna-se maçante ou desinteressante.

Concluí, no meu capítulo, a falta de um debate público plural entre economistas de diferentes correntes levar a erros de avaliação e decisões equivocadas por parte de leigos em Economia. Enfatizei a importância de buscar diferentes perspectivas e questionar as próprias projeções para evitar o viés da confirmação e tomar decisões mais bem informadas.

Para os críticos da literatura da retórica na Economia, o recurso excessivo a técnicas de persuasão desvirtua a atividade científica. Perde de vista a meta de buscar a verdade. Deixa lugar ao puro convencimento de outros a respeito de sua doutrina pessoal (lógica-racional) sem teste empírico de suas hipóteses.

Gilberto Tadeu Lima frisa muitos adeptos da Econometria acham um argumento ou raciocínio econômico ser válido se, e somente se, puder ser demonstrado ou justificado em termos matemáticos. Se não está (ou não pode ser) formalizado em formulação matemática configura mero blá-blá-blá.

Outros contra-argumentam um raciocínio econômico efetivo e realmente relevante não necessitar de demonstração ou justificativa em termos matemáticos. Os praticantes da Econometria vivem em uma Torre de Marfim – e não conseguem se comunicar com as pessoas comuns.

Para Lima, “a formalização matemática é uma (e não necessariamente a única ou mesmo a melhor) forma de abordagem logicamente coerente e consistente de um determinado (e não necessariamente de qualquer) aspecto ou dimensão de um (e não necessariamente de qualquer) fenômeno econômico de interesse”. Conclui modelagem matemática de um fenômeno econômico de interesse necessariamente ser um retrato incompleto e imperfeito dele.

No depoimento de um ex-aluno, Gustavo Pessoa, “o Professor Rego não é unicamente o professor de Economia, Sociologia, História ou outra ciência qualquer, ele é o professor do pensamento, é um professor capaz de ensinar a pensar fora da caixa, ensina os alunos a usarem o próprio intelecto. Ele nos ensina a Economia como uma Ciência Social viva com interações com a Política, a Sociologia e a Psicologia, ela é tudo isso. Assim, para saber de Economia é preciso saber de tudo isso e muito mais”. Concordo… e assino embaixo!

Quem argumenta as Finanças Comportamentais, ao focar aspectos particulares do comportamento, desviarem a atenção do objetivo primeiro da Economia e das Finanças – a busca pelas leis fundamentais do mercado –, enfrentará a discordância do Zé Márcio pelo crítico “ver o mundo através de uma única lente”.

Leda Paulani critica as ideias da retórica na Economia, porque, em um contexto no qual os valores de mercado são defendidos sem necessidade de disfarces teóricos, a retórica se torna inadequada e até mesmo prejudicial. Argumenta, na Era Neoliberal, os valores do mercado são apregoados e defendidos de forma tão explícita a ponto de qualquer verniz teórico se torna desnecessário para justificar a defesa de interesses concretos como verdades científicas. O “puro discurso do capital basta”.

Paulani sugere, quando não há uma ponte entre a Ciência Econômica e a realidade concreta, o conhecimento produzido na academia, bem como as polêmicas e controvérsias geradas, são vistos como mera “falação”. Trata-se de um debate teórico cujo interesse é apenas dos participantes, sem impacto no mundo real.

Ela critica as frases de McCloskey sobre a semelhança entre Economia e Literatura, porque elas não se transformam em uma crítica do mainstream econômico e nem o desvenda como ideologia. A economista de Chicago faz sim uma negação indeterminada com mistura das pretensões de validade dos discursos.

Não há razão de gastar retórica para sustentar o neoliberalismo prático. O simulacro de teoria macroeconômica apresentada pelos novos clássicos, mais o serviço prestado pelos assim chamados novos keynesianos somam o suficiente para produzir as coordenadas técnicas e os modelos segundo os quais devem operar os gestores das finanças públicas e das políticas monetária e cambial.

Houve um deslocamento da Economics (Ciência Econômica) por uma espécie de Business Administration de Estado, cujo único objetivo é preservar a estabilidade monetária e garantir o respeito aos contratos. Paulani, corretamente, destaca o equívoco de acreditar em uma única Ciência Econômica ser capaz de servir para qualquer lugar e em qualquer época. Ela defende a análise econômica ser adequada ao espaço e ao tempo para se tomar decisões práticas.

Em síntese, Paulani acha a retórica na Economia ser dispensável em um contexto neoliberal, onde a defesa dos interesses concretos de mercado não requer justificativas teóricas complexas. A retórica, nesse cenário, corre o risco de se tornar uma mera “falação”, desconectada da realidade, obscurecendo as relações de poder e os impactos concretos das políticas econômicas.